O sofrimento é mais do que um episódio psíquico: ele é, como disse Schopenhauer, a pulsação trágica da existência.
Não é um acidente do viver, mas o próprio sinal de que existimos com consciência. Estar no mundo é ser lançado, como em Heidegger, à angústia do nada, ao confronto com a liberdade que pesa e com a finitude que silencia.
Contudo, aprendemos a rejeitar a dor como se fosse uma falha do sistema. A sociedade da performance, como lembra Byung-Chul Han, exige produtividade e positividade contínuas. A dor torna-se vergonha; a tristeza, tabu.
Aqui, essa lógica ganha forma estética: imagens felizes, conquistas incessantes, afetos publicitários. Mas por trás da persona construída, muitos vivem o que Kierkegaard chamava de “desespero da possibilidade” — o vazio de não ser quem se é, por medo de não ser aceito.
Essa felicidade compulsória é, como diria Guy Debord, uma extensão do espetáculo. Um mundo de representações em que o ser é substituído pela aparência, e a autenticidade é sacrificada no altar da visibilidade.
Sofrer, nesse contexto, é um gesto subversivo — porque é recusar a mentira reconfortante, é encarar, como fez Camus, o absurdo com lucidez, e ainda assim não ceder ao niilismo.
Nietzsche advertia que o homem que tem um porquê enfrenta qualquer como. Mas e quando o porquê é silenciado pelo ruído incessante das imagens felizes? E quando o sofrimento, em vez de ser compartilhado, é ocultado por filtros e frases prontas?
O sujeito atual não apenas sofre — sofre isolado, olhando para a vitrine do contentamento alheio, acreditando que sua dor é anomalia. Mas ela é, ao contrário, o que nos une. O que nos faz humanos, reais, incompletos.
Assumir o sofrimento é também resgatar o ser do exílio da imagem. É dizer, como Simone Weil, que “a dor é o único estado em que o mundo nos obriga a estar presentes”. É abrir espaço para o silêncio verdadeiro, onde a escuta vale mais que a exibição, e onde o encontro é possível — não por meio de máscaras, mas pela partilha do real.
E talvez, ao reconhecermos isso, possamos deixar de buscar abrigo em curtidas e aplausos, e reencontrar no sofrimento partilhado o caminho de volta ao que somos.
Leonardo Ribas
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