ROTEIRO DE TRABALHO - 1ª Série (2025) – Literatura Brasileira 1 – 3º. Trimestre Caro aluno, a proposta de trabalho da Equipe de Literatura estará sempre voltada para o exercício da leitura, interpretação e produção textual. Nosso eixo temático em 2025 é TECNOLOGIAS E ANCESTRALIDADES.. Desse modo, os textos sugeridos para as leituras do Terceiro Trimestre irão girar em torno desse tema.
Texto 1: A formatura
Mal dobrou a esquina e José já estava achando um clima esquisito. Parou em frente ao velho conhecido portão de ferro, abriu-o devagarinho e entrou. A casa estava no mais absoluto silêncio, formando um conjunto sombrio com a rua também vazia. Não estava acostumado a tanto nada nos ouvidos naquele território tão conhecido desde o berço. Não tinha recordação de um momento assim em sua vida naquele endereço: esvaziado de gente, de alma e, principalmente de sons. A cabeça humana é bem esquisita – pensou – , passamos um tempão desejando coisas e quando finalmente acontecem, vemos que não é nada daquilo. Desde o ensino fundamental até o fim da universidade queria ardentemente um momento como aquele, ou seja, um instante de paz para estudar ou simplesmente pensar em nada, mas ali dentro era uma gritaria tamanha, um entra e sai galopante e uma eterna casa cheia que o enlouquecia. Ele, o “diferente”, o quietinho do bando de louco da casa do seu Antenor, se incomodava com tanta agitação. José deu alguns passos no pequeno jardim da entrada, mas estancou diante do banco de pedra entre a roseira e um dendezeiro. Viu na memória o avo agachado para cuidar da terra e contando a ele, ainda bem pequeno, como sua bisavó cuidara de todas as plantas do terreno até quase o dia em que foi para o outro mundo. Lembrou também de quando passou no vestibular para cursar a tão sonhada, por ele e por todos, universidade. Recordou o idoso tranquilo, que mais ouvia do que falava, que carregava certa doçura no modo de olhar e que jamais ele ouvira falando do alheio. Ainda ecoava em seus ouvidos a última conversa que tiveram antes do seu embarque. O abraço terno naquele mesmo banco próximo ao portão de ferro e a advertência, no timbre manso do avô, para que jamais se esquecesse de quem era, mas... afinal, quem ele era mesmo? Sentou-se no banco frio, sem o calor do pai de sua mãe, que partiu para sempre em seus primeiros meses de universitário. Não deu tempo de voltar para sentar mais uma vez ao lado dele e do dendezeiro. Sentiu os olhos arderem com alguma lágrima brincando na borda e querendo rolar pela face. Ele, agora o primeiro diplomado da família inteira, o bacharel tão sonhado e letrado, estava sucumbindo às imagens do passado ao qual se achava imune porque, a verdade precisava ser encarada, sentiu até certo alivio quando partiu para estudar fora. Levantou-se e seguiu pela porta principal: “Ora, ora... mas onde estariam todos e... Ai!”. Gemeu de dor. Por conta do ambiente na penumbra, acabara de dar uma topada no pé da mesa da avó Otília. Não sabia se xingava ou se sorria, pois, se no banco de pedra podia ver o avô, na mesa de madeira pesada da sala podia “cheirar s a avó”. Era uma variedade de pratos que ninguém fazia igual e era também insaciável a gula dos irmãos, dos primos, da gurizada da vizinhança com as comidas da matriarca. Dona Otília seguia a cartilha de seu Antenor, ou melhor, ele era quem seguia a dela, porque a mulher era durona, não admitia intriga, fofoca, falação A vizinha, dona Clotilde, bem que tentava, mas a velha estancava a Candinha só com o olhar. (...) Evitava levar os novos amigos de classe média feitos na universidade para casa da família. O peito apertou, pois sentiu vergonha da vergonha que um dia sentiu. Rumou quase correndo para o quintal! Queria voltar no tempo e ver a jaqueira e o abacateiro e ouvir a audição da recordação das brigas das tias e das primas, o samba rasgado no final de semana, queira escutar os pais e os irmãos, os amigos e amigas de infância, a primeira namorada, o choro com o remédio que ardia no cotovelo ralado, o batuque, o cavaquinho, o tamborim, o dendê e a galinha preta... Mas a casa estava completamente vazia! Como podia ser aquilo se ele via, cheirava, sentia o gosto e ouvia tudo tão vivamente? O último dos sentidos José só experimentou quando desceu a pequena escada que ligava a cozinha ao quintal. Foi uma explosão de instrumentos, vozes e ritmos, afinal, não é todo dia que volta para casa um doutor José! Estavam todos lá, esperando pelo primeiro dos seus com “o canudo”. A família, os vizinhos, os conhecidos. Beijos estalados, abraços apertados, tapinhas nas costas de uma pequena multidão. O tio Tonico improvisou um discurso com aquela voz pastosa de quem já havia esvaziado algumas garrafas, saudando-o como uma sumidade do pedaço. José mirou a jaqueira. Por um momento pensou ter visto seu Antenor e dona Otília. Contradisse o tio. – Bamba... bamba são os da minha casa! E a comemoração da formatura foi até o dia clarear, num tal de todo mundo beber e de todo mundo sambar. Eliana Alves Cruz. A vestida. Rio de Janeiro: Malê, 2022.
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