segunda-feira, 23 de maio de 2022
Trovadorismo em Portugal
"Resumo
Foi um movimento poético-musical;
Desenvolveu-se na Idade Média, entre os séculos XI e XIV;
As composições chamavam-se cantigas e eram geralmente acompanhadas de música e dança;
Cantigas de amor (cavaleiro declara amor e coita à dama);
Cantigas de amigo (sempre na voz feminina);
Cantigas de escárnio (ironia e crítica indireta);
Cantigas de maldizer (ofensivas e diretas, citando nomes);
As cantigas chegaram aos nossos dias graças ao Cancioneiros;
Os trovadores oficiais tinham linhagem nobre, incluindo reis, mas havia também os jograis, nascidos nas camadas populares;
Apreciada pela corte, a obra trovadoresca foi importante instrumento de consolidação da cultura e do idioma português."
Veja mais em: https://brasilescola.uol.com.br/literatura/trovadorismo.htm
"Cantigas
As cantigas dividem-se em dois tipos: lírico e satírico.
Cantigas líricas
Cantigas líricas são as de temática amorosa, e possuem dois tipos: cantigas de amor e cantigas de amigo.
Cantigas de amor
Gênese da poesia amorosa que surgiria nos séculos seguintes, a cantiga de amor é cantada em 1ª pessoa. Nela, o trovador declara seu amor por uma dama, geralmente acometido pela coita, a dor amorosa diante da indiferença da amada.
A confissão amorosa é direta, e o trovador comumente dirige-se à dama como “mia senhor” ou “mia senhor fremosa” (“minha senhora” ou “minha formosa senhora”), em analogia às relações de senhorio e vassalagem medievais. O apaixonado é, portanto, servo e vassalo da amada e enuncia seu amor com insistência e intensidade.
Mesura1 seria, senhor2,
de vos amercear3 de mi,
que vós em grave4 dia vi,
e em mui grave voss’amor,
tam grave que nom hei poder
d’aquesta coita mais sofrer
de que muit’há fui sofredor.
Pero sabe Nostro Senhor
que nunca vo-l’eu mereci,
mais sabe bem que vós servi,
des que vos vi, sempr’o melhor
que nunca pudi fazer;
por em querede-vos doer
de mim, coitado pecador.
[...]
(D. Dinis, em Cantigas de D. Dinis, B 521b, V 124)
[1] mesura: “cortesia”
[2] senhor: “senhora”. Os sufixos terminados em “or” não possuíam flexão feminina.
[3] amercear: “compadecer-se, sentir compaixão”
[4] grave: “difícil, infeliz”
Nessa cantiga, o trovador espera que a dama tenha a cortesia de sentir compaixão por ele. Sofrendo, diz que foi infeliz o dia em que a conheceu e mais infeliz ainda o amor que por ela sentiu, tão difícil que não pode mais sofrer da coita, pois que há muito é sofredor. Sabe Deus que ele nunca mereceu esse sofrimento, sabe Deus que ele sempre ofereceu à dama o seu melhor e diz que ela é que quer vê-lo padecer, coitado pecador.
Cantigas de amigo
Embora compostas por trovadores homens, representam sempre uma voz feminina. É a dama quem vai expor seus sentimentos, sempre de maneira discreta, pois, para o contexto provençal, o valor mais importante de uma mulher é a discrição. A donzela dirige-se por vezes à sua mãe, a uma irmã ou amiga, ou ainda a um pastor ou alguém que encontre pelo caminho. Existem sete categorias de cantigas de amigo:
- as albas, que cantam o nascer do Sol;
- as bailias, que cantam a arte da dança;
- as barcarolas, de temática marítima;
- as pastoreias, de temática bucólica;
- as romarias, de celebração religiosa;
- as serenas, que cantam o pôr do Sol;
- as de pura soledade, que não se enquadram em nenhum dos temas anteriores.
Oy eu, coytada, como vivo em gran cuydado
por meu amigo que ey alongado!
Muito me tarda
o meu amigo na Guarda
Oy eu, coytada, como vivo em gran desejo
por meu amigo que tarda e non vejo!
Muyto me tarda
o meu amigo na Guarda
(D. Sancho I ou Alfonso X [autoria duvidosa], Cancioneiro da Biblioteca Nacional, B 456)
Nessa cantiga, verifica-se que a donzela também sofre as penosas dores do amor, da distância entre ela e o amado, oficial da guarda, que há muito não vê. Percebemos, entretanto, que o discurso amoroso é mais sutil, não é dirigido diretamente ao rapaz; trata-se de um lamento de saudade.
Cantigas satíricas
Destinam-se a ironizar ou difamar determinada pessoa. Existem dois tipos de cantigas satíricas: as de escárnio e as de maldizer.
Cantigas de escárnio
São mais irônicas e trabalham sobretudo com trocadilhos e palavras de duplo sentido, sem mencionar diretamente nomes. São críticas indiretas: é um “mal dizer” de maneira encoberta, insinuada.
Ai dona fea, fostes-vos queixar
que vos nunca louv'en[o] meu cantar;
mais ora quero fazer um cantar
em que vos loarei todavia;
e vedes como vos quero loar:
dona fea, velha e sandia!
Dona fea, se Deus mi perdom,
pois havedes [a]tam gram coraçom
que vos eu loe, em esta razom
vos quero já loar todavia;
e vedes qual será a loaçom:
dona fea, velha e sandia!
Dona fea, nunca vos eu loei
em meu trobar, pero muito trobei;
mais ora já um bom cantar farei
em que vos loarei todavia;
e direi-vos como vos loarei:
dona fea, velha e sandia!
(João Garcia de Gilhade, Cancioneiro da Biblioteca Nacional, B 1485 V 1097)
Nessa cantiga de escárnio, o trovador responde a uma dama que se teria queixado de nunca ter recebido dele nenhuma trova. Irônico, ele diz que fará, então, uma cantiga para louvá-la, chamando-a “dona feia, velha e louca [sandia]”.
Cantigas de maldizer
São aquelas em que os trovadores apontam direta e nominalmente o alvo de suas sátiras, de forma propositalmente ofensiva e fazendo uso de vocabulário grosseiro.
Da mulher vossa, ó meu Pero Rodrigues
Jamais creiais no mal que falam dela.
Pois bem sei eu que ela por vós mui zela,
Quem não vos quer vos traz somente intrigas!
Pois quando deitou ela em minha cama,
A mim mui bem de ti ela falava,
Se a mim deu o corpo, é a vós quem ela ama.
(Martim Soares, versão de Rodrigues Lapa, em Crestomatia arcaica)
Veja também: Humanismo: período de grande desenvolvimento da literatura
Cancioneiros
As cantigas do trovadorismo chegaram até nosso conhecimento pelo registro dos Cancioneiros. Trata-se de livros, geralmente manuscritos, que são compilados com as letras e, às vezes, notações musicais das canções, além de ilustrações. São três os principais Cancioneiros.
Cancioneiro da ajuda: compilação de textos do século XIII, foi descoberto na biblioteca do Colégio dos Nobres apenas no início do século XIX. Possui 310 cantigas, em sua maioria de lírica amorosa, e permaneceu inacabado, o que é perceptível por possuir iluminuras com as pinturas incompletas ou ainda apenas com o desenho traçado.
Folha do manuscrito do Cancioneiro da ajuda, conjunto de poemas escritos no século XII. [1]
Cancioneiro da Biblioteca Nacional: manuscrito copiado na Itália no começo do século XVI, por inciativa do humanista Angelo Colocci, com base em outro manuscrito de origem medieval desconhecida. Contém 1560 poemas de cerca de 150 trovadores e menestréis galego-portugueses, compostos entre os séculos XII e XIV, nos gêneros lírica amorosa e sátira.
Cancioneiro da Vaticana: também copiado por Angelo Colocci, na Itália, recebe esse nome por ter sido encontrado na Biblioteca do Vaticano. É composto de 1205 cantigas, das quais 138 são de autoria de D. Dinis."
"Características do trovadorismo
As obras do trovadorismo são chamadas cantigas, pois eram escritas para serem declamadas (não havia cultura do livro na Idade Média, a população era em grande parte analfabeta e ainda não havia sido inventado o livro impresso), e frequentemente eram acompanhadas de instrumentos musicais, como a lira, a flauta, a viola.
Enquanto o compositor (de origem) era chamado de trovador, o músico era chamado de menestrel. Chamava-se segrel o trovador profissional, cavaleiro que ia de corte em corte divulgando suas cantigas em troca de dinheiro.
Havia ainda o jogral, cantor de origem popular que interpretava cantigas de outrem e compunha as suas próprias. As baladeiras ou soldadeiras eram as dançarinas e cantoras que também os acompanhavam nas apresentações e dramatizações das cantigas.
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Veja mais em: https://brasilescola.uol.com.br/literatura/trovadorismo.htm
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