Os Gêneros literários através do tempo
Material teórico para turma de Introdução à Literatura Brasileira- Primeiro ano do Ensino Médio. Professora Elis Crokidakis Castro
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Os Gêneros literários através do tempo
A questão dos Gêneros é uma das mais antigas dos estudos literários, saber a origem das formas utilizadas pela literatura desde sempre provocou o interesse de poetas e estudiosos do tema. Poderíamos montar uma genealogia dos gêneros retomando desde a antiguidade clássica para mostrar a necessidade de classificação e descrição dos tipos literários de que se tem notícia. Todavia, mesmo assim ficariam as perguntas, de sempre: de onde derivam? são categorias descritivas? são formas fixas, universais? podem variar? podem se hibridizar? Devem ser obedecidas? Surgem antes ou depois da obra? Limitam ou ajudam na construção da obra? Essas e muitas questões permanecem e graças a elas seus estudos continuam vivos.
O radical gen-denota origem, nascimento, gene, gens, gênesis(da bíblia- origem do mundo),seria então gênero = origem, família, agrupamento de coisas com as mesmas características. Em Literatura poderíamos dizer que seriam as famílias de obras com as mesmas características .
Serviriam os gêneros então partindo dessa conceituação para o poeta melhor olhar a realidade na hora de sua criação. Serviriam também os gêneros como uma espécie de molde que será usado na hora de criar um objeto estético literário. Todavia os gêneros nasceram depois das obras que foram usadas para exemplificá-los. Platão e depois Aristóteles com base nos textos já existentes classificaram as obras com suas nomenclaturas, logo, as obras precedem aos gêneros e não lhes devem obediência, embora os autores possam usá-los.
Podemos então definir: “Gêneros são apetrechos óticos por meio dos quais os escritores teriam acesso à realidade, entrevista na caótica diversidade” .“ Logo cada gênero permitirá que se visualize uma parte e um tipo especial da realidade e não toda ela. “Gêneros são aparelhos para captação da realidade. Assim o texto criado pelo escritor é mediação entre leitor e a realidade” .
Massaud Moisés defende que teríamos 2 gêneros- duas formas diversas de ver o mundo: a poesia - para dentro e a prosa – para fora, sendo o ritmo o fator que as difere.
Encontra-se em Platão na República o primeiro esboço dos gêneros já classificados e seriam:
Teatro(imitação)Comédia
Tragédia
Ditirambos Poesia Lírica( exposição do poeta)
Epopeia Poesia épica(mistura os dois processos)
Posteriormente a Platão seu discípulo Aristóteles recusa o modelo de platônico na Poética e classifica:
• Comédia
• Tragédia Teatro(imitação)
• Epopeia
• Poesia Ditirâmbica (emprega o ritmo, a melodia, o verso simultaneamente)
• Aulética
• Citarística
Já no século XIX, Hegel na Estética sistematiza de forma platonizante os 3 gêneros fundamentais que aparecem na grande maioria dos livros, mas tal classificação entra em xeque com o avanço das ciências naturais no fim do XIX. Assim teríamos modernamente a divisão:
• A Lírica ( poesia)
• A épica( narrativa)
• A dramática( teatro)
Hoje costuma-se adotar nomenclaturas que não se sabe bem de quem vieram, ou que vieram de um processo de misturas de classificações logo:
A poesia então poderia ser lírica e épica de acordo com seu conteúdo. Vide a Ilíada e a Odisseia que foram primeiro escritas em versos.
Na poesia lírica, o poeta despreza ou amolda a si o plano exterior, se dobra para dentro de si, numa autocontemplação narcisista e solitária. A lírica, poesia confessional, expressa os conflitos “pobres” localizados na área da sentimentalidade. Nesses o homem comum encontra a sua identidade.
Na poesia épica, o poeta se reflete para fora de si, alargando o eu até o limite do nós: na subjetividade do poeta se reflete um povo, uma raça e mesmo toda humanidade.
A lírica se subdivide em espécies de formas: soneto, ode, canção, rondel, triolê, rondó,balada etc, a épica: poema, poemeto, epopeia.
Já a prosa, não apresenta espécies, seria o gênero que se pauta na narrativa não poética, há vários modos, a novela, o conto, o romance, que apresentam elementos específicos como: personagens, espaço, tempo, enredo, tema.
Das formas da Prosa temos: O romance que tem estrutura vertical, ou espiral, aberta em todas as direções para a realidade exterior, ainda que oclusa no desenlace. Com o universalismo de símbolos, polivalência e dinamismo ele fixa o real como tal, molda o caos do mundo no perímetro de sua ficção. Tem simultaneidade dramática, as células dramáticas interligam-se solidariamente, ao mesmo tempo e às vezes no mesmo espaço- os conflitos ocorrem simultaneamente como na vida real. Nele ocorre o nexo de reciprocidade entre personagem e ação de modo que esta em vez de revelar a identidade psicológica daquela, exprime-a.
A novela cuja a estrutura é fechada, ou aberta horizontalmente, pode acumular os episódios em sucessividade - uma saída para a realidade exterior- o epílogo. O ‘mistério’ diz respeito mais a quem praticou a ação, ou quais possam ser suas consequências, do que ao significado delas. Ela petrifica o real e minimiza-lhe a diversidade, recusa atentar para o caos do mundo possui multivocidade dramática que se caracteriza pela sucessividade.
O conto outra forma corre em linhas paralelas com as unidades e o número de personagens. É objetivo, plástico, horizontal costuma ser narrado em 3ª pessoa, sem introspecção ou fluxo de consciência ( elementos do romance) a historia é breve, e as palavras são suficientes e necessárias para convergir num mesmo alvo. A imaginação evita perder-se no vácuo prendendo-se plasticamente à história. Moises diz que “ a técnica de estruturação do conto assemelha-se à técnica fotográfica: o fotógrafo concentra sua atenção num ponto e não na totalidade dos pontos que pretende abranger no visor, focaliza um detalhe, o principal, no seu entender, e capta-lhe os arredores, de modo não só a fixar o que vê, mas também o que não vê”.
Do texto escrito para o teatro temos o Dramático – Drama é ação- escrito para ser representado pelos atores. Os assuntos visam alcançar um final, se projetam para o final, através da construção de uma expectativa que cresce até o desfecho. Classificam-se então em:
Tragédia –ação de caráter elevado, em estilo agradável trata da destruição do mundo do herói.
Comédia- forma dramática que se volta para o homem de fraca psique, mímesis dos vícios que não causando sofrimento levam ao ridículo e produzem riso.
Resta dizer que modernamente também estes dois tipos de teatro se misturam.
Numa análise arqueológica vemos que tal estudo ao logo dos tempos foi se modificando para chegar ao que é hoje. Mesmo a ideia de mímeses foi evoluindo de imitação pura para imitação da essência. Faremos então um panorama, que pontua as ideias de cada época mas levando em consideração o que chamamos o “enquanto isso” da teoria, o seja, a simultaneidade em que muitas ideias convivem em tempos iguais e em espaços diferentes, como ocorre no século XX.
Retomamos a temática nas lições de Platão(428aC a 347aC) no livro III da República, que foram as primeiras formulações do que seria o gênero literário, quando o filósofo examina as maneiras técnicas e formais do que seriam as formas literárias. Platão já fala na prosa, na comédia, tragédia, no ditirambo e na epopeia . Advém então daí a classificação depois retomada por Aristóteles(384aC a 322aC), o dramático, o lírico e épico. Além dessa classificação, Platão fala da ideia de imitação, ou seja, os gêneros se construiriam a partir a imitação, que seriam utilizadas para fins de educação e implica em enormes questões filosóficas até os dias de hoje. Platão atribuía a arte uma função moralizante e por isso ele condena o poeta pois este dá autonomia à voz das personagens, o que não contribuiria em nada para o projeto político de edificação de uma polis ideal.
Aristóteles, por sua vez, recusa a hierarquia de Platão. Escreve sua Arte Poética retomando o conceito de mímeses de forma diferente, diz que o prazer decorrente da mímesis não se explica pelo que sente em relação ao mundo empírico. O filósofo valoriza o trabalho poético e estuda os modos de constituição da forma literária e as diferenças entre os gêneros. Logo, pela forma em que se realiza a mímese ele define os gêneros em : poesia ditirâmbica, a que emprega o ritmo, a melodia, o verso simultaneamente . A tragédia e a comédia empregam o ritmo, a melodia e verso alternadamente.
Ainda na antiguidade Horácio (65aC a 8aC) impõe à literatura um função moral e didática , e junta prazer e educação. Para ele “só é poeta quem sabe respeitar o domínio e o tom de cada gênero literário”. Horácio não considerava a possibilidade de hibridismo dos gêneros. E foi o responsável pela ponte entre Antiguidade Clássica e o Renascimento. Sua ênfase era na ordem e coerência da obra de arte o que tornou-se lei na doutrina neoclássica da unidade de tempo, lugar e de ação, com um único assunto, um caráter, uma linguagem e um metro apropriado.
Já na Idade Media( (476-1453- sec. XIII-XIV) ocorre o rompimento com a antiguidade clássica e os gêneros são organizados com novos conteúdos. Volta-se para a poesia trovadoresca. Dante Alighiere (Divina Comédia) chama o estilo de escrever de: Nobre(epopeia e a tragédia )/ médio( comédia de final feliz)/ Humilde( a elegia).
No Renascimento (sec. XV- XVI) vemos retornar os postulados da antiguidade clássica e a mímese aristotélica é vista não como processo recriação, mas de imitação da natureza. Nesse momento a rigidez dos gêneros sobrevêm para que possam ser seguidos. De novo o modelo clássico passa a ser o ideal e a imutabilidade dos gêneros defende a universalidade da arte e a essência da supra história. Aparece a poesia lírica( 3º gênero). Assim teríamos: Poesia narrativa ora fala o poeta, ora as personagens, Poesia dramática não tem intervenção do poeta é ação, Poesia lírica são reflexões do próprio poeta.
No século XVII marca o racionalismo de Boileau- Nicolas Boileau Despreaux(francês) que escreve Arte poética. Para ele o valor da arte está na razão, logo, bom senso, equilíbrio, adequação e clareza são condições para poesia. Segue a definição de gênero da renascença( forma fixa) regras predeterminadas. Classifica tragédia e epopeia como maiores e a comédia e farsa com o menores. Existe ainda a repercussão das ideias horacianas.
No pré-romantismo e no Romantismo século XVIII( 2ª metade) e XIX ( 1 ª metade) a ideia de variação dos gêneros ganha força. O poeta aí passa a ser visto um ser especial, um gênio e sua interioridade tem ênfase nas suas poesias que valorizam a individualidade e a autonomia de cada obra escrita.
No romantismo a liberdade de criação tem ênfase, os românticos aceitam os gêneros mas propõem suas teorias que derrubam as regras clássicas de mímeses somente reduzida à imitação. A rebeldia destes poetas contra os clássicos aparece no “prefácio” do Cromwell(1827) de Victor Hugo. Eles ainda valorizam o hibridismo dos gêneros, dizendo “se tudo na vida se mistura também nos gêneros isso ocorrerá” . No Drama criado por eles, ocorre a reunião de todos os elementos.
A segunda metade do século XIX é marcada pelo positivismo de Taine e o evolucionismo de Darwin nos estudos do gênero. Brunetiere ( Francês) e Croce( italiano) dividem as posições. Aquele defende a evolução dos gêneros como das coisas( nascimento, crescimento ,morte)- logo a epopeia( ou canção de gesta) teria dado o romance, de aventura, os épicos e de costumes, a tragédia clássica teria desparecido ante o drama romântico, e este, Croce em sua posição combate o conceito de imitação, de gênero e de historiografia da obra literária. Ele traz a ideia de conhecimento intuitivo e lógico que se produz com imagens e conceitos, logo a ideia de expressão, ele nega a substancialidade dos gêneros, mas admite sua instrumentalidade para construir a história literária,cultural e social . Ainda advoga que o valor didático não deveria interferir no julgamento da obra.
No século XX as novas tendências enfatizam a literariedade do texto literário como um fato linguístico e focado nos elementos internos do texto, tais como metáforas, imagens, paradoxos, ironia, desvalorizam as características do gênero na literatura como “algo extrínseco à literariedade”.
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