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1. Conceitos fundamentais da literatura.
Epígrafe; “ A vida verdadeira, a vida
afinal descoberta e tornada clara, por conseguinte a única vida plenamente
vivida, é a literatura” .
Marcel Proust- “Em busca do tempo perdido”
A primeira questão que abordaremos antes de sabermos os conceitos fundamentais da
literatura é o que é literatura e qual seria a sua função? Seguiremos o caminho
tradicional de muitos teóricos. Terry Eagleton inicia seu livro,Teoria da
literatura: uma introdução, fazendo esta pergunta- O que é literatura? Sartre faz
a mesma pergunta, e Antoni Compagnon a segunda pergunta Literatura para que?
Duas perguntas que norteiam os estudos literários nas suas origens, ou não? Cabe
a Aristóteles na Poética, desafiando seu mestre Platão, lançar o que ainda hoje
consideramos como elementos para construir o objeto de teoria: a literatura.
Elementos estes que seriam a mímeses, a catarse, a verossimilhança que
abordaremos no desenvolver desse assunto, antes porém vamos ao conceito de
literatura.
Foram e ainda são muitas as maneiras de definir nosso objeto de
investigação, a literatura. Pode ser literatura tudo que se convencionar chamar
assim, dizia Barthes, ou pode ser literatura uma escrita da imaginação, a
ficção, aquilo que não tem um compromisso com a verdade real dos fatos.
Todavia,
saber se algo é real ou não real, tanto faz para a construção literária, que pode
se apropriar ou não da realidade dos fatos. Logo o que constrói o texto
literário não são os fatos, mas como abordamos os fatos, e como a linguagem é
utilizada para esta construção.
Assim a literatura é a arte verbal que “usa a
linguagem de forma peculiar” . Escrita que representa uma “violência organizada
contra a fala comum”, “é uma linguagem que chama atenção sobre si mesma e exibe
sua existência material” . Para os Formalistas Russos “a obra literária não era
um veículo de ideias, nem uma reflexão sobre a realidade social, nem a
encarnação de uma verdade transcendental: era um fato material, cujo fundamento
podia ser analisado mais ou menos como se examina uma máquina” . Logo os
Formalistas viam a obra literária como uma reunião de “artifícios”( som, imagem,
ritmo, sintaxe, métrica, rima, técnicas narrativas) articuladas entre si
produzindo um efeito e tal efeito provocaria um estranhamento que advinha
justamente do fato de tal linguagem fugir ao uso normal da própria linguagem
cotidiana.
Assim o discurso literário (da literatura) não se caracteriza pela
transparência mais sim pela opacidade, e depende de quem o decodificará para ser
entendido. Ou seja, o universo do receptor também determina o jogo de relações
entre o que os formalistas chamam de artifícios , e o entendimento do leitor. “O
texto literário é então um objeto de linguagem ao qual se associa uma
representação de realidades físicas, sociais, emocionais, mediatizadas pelas
palavras da língua na configuração de um objeto estético. O texto repercute em
nós na medida em que revele emoções profundas, coincidentes com as que em nós se
abriguem como seres sociais. O artista da palavra, co-partícipe da nossa
humanidade, incorpora elementos dessa dimensão que nos são culturalmente comuns”
. Logo, o entendimento de uma obra literária depende do grau de semelhança que
tem a mesma com o repertório cultural e linguístico do receptor.
O conceito de
literatura então não é pacífico. Mas aceitamos que seja linguagem, que usa o
discurso a serviço da criação artística. A criação então tem sua compreensão
relacionada com o que Aristóteles chamou de mímeses; o primeiro fundamento da
literatura. Mimetizar o real era então, a imitação que vai além da reprodução ou
fotografia do real. Todavia o que antes se chamava imitação permaneceu por
séculos nos estudos literários e só no século XIX, compreendeu-se o conceito de
imitação aristotélico como “uma revelação da essência do real”. Através das
palavras, da linguagem verbal, o poeta desrealiza a realidade e transforma-a em
signos e símbolos (o texto). “A mímese poética leva ainda mais longe esse
desrealizar, quando a partir do fingimento do particular atinge espaços da
universalidade” . Assim, o texto literário existe a partir de si mesmo e
“caracteriza uma apreensão profunda do homem e do mundo a partir de tensões de
caráter individual ou coletivo” . Nos estudos sobre a representação e a mímeses
destacam-se Erick Auerbach e Luiz Costa Lima aqui no Brasil. Sendo então reflexo
das apreensões do homem e da sua visão de mundo o texto literário fruto do
fenômeno do mesmo nome, se efetiva na inter-relação autor/ texto/leitor e por
isso apresenta diferentes formas de interpretações, tributárias também das
formas ambíguas que a linguagem literária tem, ou seja, existe um caráter
conotativo de tal linguagem e tal conotação se destaca no sistema semântico que
é a literatura.
A literatura ainda está relacionada com a cultura, o povo, logo
a matéria literária é também cultural e o artista se apropria da cultura, do
mundo para organizar suas obras, cria-las, dando-lhes a feição de seu estilo.
Assim o discurso literário é um discurso artístico, donde advém a sua
complexidade, e por suas “informações” ou por intermédio dessas, se pode
entender para além do nível semântico. Ali, realidades são reveladas “mesmo
vinculadas a elementos de natureza individual ou de época atingindo espaços da
universalidade” . Também tal discurso apresenta também uma multissignificação ou
plurissignificação, ou seja, pode ser compreendido de múltiplas formas, pois o
texto literário cria significantes e funda significados, dando assim margem para
múltiplas interpretações. A plurissignificação então age no campo sócio cultural
e na criação de espaços míticos e arquetípicos. Todos estes fatores juntos é que
permitem a obra ultrapassar seu tempo, sendo lida e relida por gerações
diversas, eternamente. O texto literário abriga ainda como fundamento elementos
que o aproximam de um real concreto e que garantem a sua verossimilhança .
Quanto mais perto da realidade maior o grau de verossimilhança. Logo o texto
literário longe ou perto da realidade possui literariedade, constituída pelas
metáforas, as metonímias, as sonoridades, ritmos, a narratividade, a descrição,
os personagens, os símbolos, ambiguidades, alegorias, os mitos e outras
propriedades que usadas pelo escritor dão forma ao texto. Por fim, outro
conceito capital que fundamenta a literatura é a catarse, que “Aristóteles
compreendia como uma espécie de “purgação” ( porque realiza um efeito purgante
sobre as emoções reprimidas dos espectadores, ou leitores) que permite nos
identificarmos com o sofrimento dos personagens, ou dos poetas, sentindo temor e
piedade” . Logo, “a experiência ficcional nos ajuda, através da catarse a
convivermos com as nossas dores e com nossos dramas” . E ainda segundo
Aristóteles, “ se é graças a mímeses representação ou ficção, imitação que o
homem aprende(pois através da repetição e imitação se aprende), através da
catharsis, purificação ou apuração das paixões pela representação, ele melhora a
vida ao mesmo tempo privada e pública” . Com esses conceitos “Aristóteles,
contra Platão, reabilita a poesia em nome da boa vida” . Assim, depois desses
fundamentos respondemos a pergunta de Antoni Compagnon: literatura para que?
Ora, ele mesmo com seus argumentos em todo livro defende a necessidade da
literatura que é também a necessidade da arte. A literatura então o que faz e
para que serve é “ampliar as nossas perspectivas ao mapear a realidade,
anunciando territórios inexplorados e desconhecidos; a ficção e a literatura nos
permitem viver o que de outro modo talvez não fosse possível, ou seja, nos
permite ser outros( os personagens) e adquiri ainda que momentaneamente, a
perspectiva destes outros- para adiante, termos uma chance de cumprir o primado
categórico de todas as éticas, de tão difícil realização: ser o que se é”.
Bibliografia: Eagleton, Terry.Teoria da literatura: uma introdução Compagnon,
Antoni. Literatura para que? Aristóteles. Poética. Antônio Candido-direito a
literatura ( áudio) https://www.youtube.com/watch?v=4cpNuVWQ44E Filho,Domício
Proença. A linguagem literária .
https://filosoficabiblioteca.files.wordpress.com/2018/12/PROEN%C3%87A-FILHO-Dom%C3%ADcio-A-linguagem-liter%C3%A1ria.pdf
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