segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Unidade 1- Conceitos fundamentais da literatura.

USO RESTRITO EM SALA DE AULA Este material é parte do livro : Conceitos fundamentais de Literatura - Professora: Elis Crokidakis Castro
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 1. Conceitos fundamentais da literatura.

 
Epígrafe; “ A vida verdadeira, a vida afinal descoberta e tornada clara, por conseguinte a única vida plenamente vivida, é a literatura” .
Marcel Proust- “Em busca do tempo perdido” 

  A primeira questão que abordaremos antes de sabermos os conceitos fundamentais da literatura é o que é literatura e qual seria a sua função? Seguiremos o caminho tradicional de muitos teóricos. Terry Eagleton inicia seu livro,Teoria da literatura: uma introdução, fazendo esta pergunta- O que é literatura? Sartre faz a mesma pergunta, e Antoni Compagnon a segunda pergunta Literatura para que? Duas perguntas que norteiam os estudos literários nas suas origens, ou não? Cabe a Aristóteles na Poética, desafiando seu mestre Platão, lançar o que ainda hoje consideramos como elementos para construir o objeto de teoria: a literatura. Elementos estes que seriam a mímeses, a catarse, a verossimilhança que abordaremos no desenvolver desse assunto, antes porém vamos ao conceito de literatura. 
Foram e ainda são muitas as maneiras de definir nosso objeto de investigação, a literatura. Pode ser literatura tudo que se convencionar chamar assim, dizia Barthes, ou pode ser literatura uma escrita da imaginação, a ficção, aquilo que não tem um compromisso com a verdade real dos fatos. 
Todavia, saber se algo é real ou não real, tanto faz para a construção literária, que pode se apropriar ou não da realidade dos fatos. Logo o que constrói o texto literário não são os fatos, mas como abordamos os fatos, e como a linguagem é utilizada para esta construção.
 Assim a literatura é a arte verbal que “usa a linguagem de forma peculiar” . Escrita que representa uma “violência organizada contra a fala comum”, “é uma linguagem que chama atenção sobre si mesma e exibe sua existência material” . Para os Formalistas Russos “a obra literária não era um veículo de ideias, nem uma reflexão sobre a realidade social, nem a encarnação de uma verdade transcendental: era um fato material, cujo fundamento podia ser analisado mais ou menos como se examina uma máquina” . Logo os Formalistas viam a obra literária como uma reunião de “artifícios”( som, imagem, ritmo, sintaxe, métrica, rima, técnicas narrativas) articuladas entre si produzindo um efeito e tal efeito provocaria um estranhamento que advinha justamente do fato de tal linguagem fugir ao uso normal da própria linguagem cotidiana. 
Assim o discurso literário (da literatura) não se caracteriza pela transparência mais sim pela opacidade, e depende de quem o decodificará para ser entendido. Ou seja, o universo do receptor também determina o jogo de relações entre o que os formalistas chamam de artifícios , e o entendimento do leitor. “O texto literário é então um objeto de linguagem ao qual se associa uma representação de realidades físicas, sociais, emocionais, mediatizadas pelas palavras da língua na configuração de um objeto estético. O texto repercute em nós na medida em que revele emoções profundas, coincidentes com as que em nós se abriguem como seres sociais. O artista da palavra, co-partícipe da nossa humanidade, incorpora elementos dessa dimensão que nos são culturalmente comuns” . Logo, o entendimento de uma obra literária depende do grau de semelhança que tem a mesma com o repertório cultural e linguístico do receptor.
 O conceito de literatura então não é pacífico. Mas aceitamos que seja linguagem, que usa o discurso a serviço da criação artística. A criação então tem sua compreensão relacionada com o que Aristóteles chamou de mímeses; o primeiro fundamento da literatura. Mimetizar o real era então, a imitação que vai além da reprodução ou fotografia do real. Todavia o que antes se chamava imitação permaneceu por séculos nos estudos literários e só no século XIX, compreendeu-se o conceito de imitação aristotélico como “uma revelação da essência do real”. Através das palavras, da linguagem verbal, o poeta desrealiza a realidade e transforma-a em signos e símbolos (o texto). “A mímese poética leva ainda mais longe esse desrealizar, quando a partir do fingimento do particular atinge espaços da universalidade” . Assim, o texto literário existe a partir de si mesmo e “caracteriza uma apreensão profunda do homem e do mundo a partir de tensões de caráter individual ou coletivo” . Nos estudos sobre a representação e a mímeses destacam-se Erick Auerbach e Luiz Costa Lima aqui no Brasil. Sendo então reflexo das apreensões do homem e da sua visão de mundo o texto literário fruto do fenômeno do mesmo nome, se efetiva na inter-relação autor/ texto/leitor e por isso apresenta diferentes formas de interpretações, tributárias também das formas ambíguas que a linguagem literária tem, ou seja, existe um caráter conotativo de tal linguagem e tal conotação se destaca no sistema semântico que é a literatura. 
A literatura ainda está relacionada com a cultura, o povo, logo a matéria literária é também cultural e o artista se apropria da cultura, do mundo para organizar suas obras, cria-las, dando-lhes a feição de seu estilo. Assim o discurso literário é um discurso artístico, donde advém a sua complexidade, e por suas “informações” ou por intermédio dessas, se pode entender para além do nível semântico. Ali, realidades são reveladas “mesmo vinculadas a elementos de natureza individual ou de época atingindo espaços da universalidade” . Também tal discurso apresenta também uma multissignificação ou plurissignificação, ou seja, pode ser compreendido de múltiplas formas, pois o texto literário cria significantes e funda significados, dando assim margem para múltiplas interpretações. A plurissignificação então age no campo sócio cultural e na criação de espaços míticos e arquetípicos. Todos estes fatores juntos é que permitem a obra ultrapassar seu tempo, sendo lida e relida por gerações diversas, eternamente. O texto literário abriga ainda como fundamento elementos que o aproximam de um real concreto e que garantem a sua verossimilhança . Quanto mais perto da realidade maior o grau de verossimilhança. Logo o texto literário longe ou perto da realidade possui literariedade, constituída pelas metáforas, as metonímias, as sonoridades, ritmos, a narratividade, a descrição, os personagens, os símbolos, ambiguidades, alegorias, os mitos e outras propriedades que usadas pelo escritor dão forma ao texto. Por fim, outro conceito capital que fundamenta a literatura é a catarse, que “Aristóteles compreendia como uma espécie de “purgação” ( porque realiza um efeito purgante sobre as emoções reprimidas dos espectadores, ou leitores) que permite nos identificarmos com o sofrimento dos personagens, ou dos poetas, sentindo temor e piedade” . Logo, “a experiência ficcional nos ajuda, através da catarse a convivermos com as nossas dores e com nossos dramas” . E ainda segundo Aristóteles, “ se é graças a mímeses representação ou ficção, imitação que o homem aprende(pois através da repetição e imitação se aprende), através da catharsis, purificação ou apuração das paixões pela representação, ele melhora a vida ao mesmo tempo privada e pública” . Com esses conceitos “Aristóteles, contra Platão, reabilita a poesia em nome da boa vida” . Assim, depois desses fundamentos respondemos a pergunta de Antoni Compagnon: literatura para que? Ora, ele mesmo com seus argumentos em todo livro defende a necessidade da literatura que é também a necessidade da arte. A literatura então o que faz e para que serve é “ampliar as nossas perspectivas ao mapear a realidade, anunciando territórios inexplorados e desconhecidos; a ficção e a literatura nos permitem viver o que de outro modo talvez não fosse possível, ou seja, nos permite ser outros( os personagens) e adquiri ainda que momentaneamente, a perspectiva destes outros- para adiante, termos uma chance de cumprir o primado categórico de todas as éticas, de tão difícil realização: ser o que se é”. 

Bibliografia: Eagleton, Terry.Teoria da literatura: uma introdução Compagnon, Antoni. Literatura para que? Aristóteles. Poética. Antônio Candido-direito a literatura ( áudio) https://www.youtube.com/watch?v=4cpNuVWQ44E Filho,Domício Proença. A linguagem literária . https://filosoficabiblioteca.files.wordpress.com/2018/12/PROEN%C3%87A-FILHO-Dom%C3%ADcio-A-linguagem-liter%C3%A1ria.pdf

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